Atrás de Cada Bandeira As Ruas Escondem Um Grande Negócio

Gian Amato / O Globo:
Enfeitar as ruas durante a Copa do Mundo deixou de ser brincadeira de criança. Cada vez mais organizados, os grupos envolvidos na arrecadação de dinheiro, produção de ornamentos e manutenção dos espaços evoluíram e contam com estrutura semelhante à de pequenas empresas. Em Copacabana, por exemplo, a equipe da Rua Inhangá emprega jovens a R$ 20 por dia, com direito a 2 refeições. Em Vila Isabel, a Rua Jorge Rudge inaugurou filiais na Vila da Penha e em Vicente de Carvalho. Sua rival, a Alzira Brandão, na Tijuca, não fica atrás: abriu um centro cultural e movimenta um orçamento de aproximadamente R$ 1 milhão.

O megaevento organizado pela Associação Recreativa e Cultural Turma do Alzirão é uma verdadeira lição de marketing. Segundo o empresário Walter da Costa, um dos coordenadores da festa, a rua alugou espaços de publicidade para empresas de comunicação e uma companhia de refrigerantes, que ganharão em troca a exposição das marcas durante os jogos do Brasil para cerca de 35 mil pessoas, público estimado pela associação. ‘Teremos 3 shows de artistas populares em um palco gigantesco, um em cada jogo do Brasil na 1ª. fase. Tudo bancado por uma rádio. Cada show custa, no mínimo, R$ 100 mil. Fora isso, temos injeção de verbas de publicidade que, somadas, giram em torno de R$ 1 milhão’, revela o empresário.

O dinheiro também foi usado no aluguel de uma sala comercial na Rua Conde de Bonfim, a poucos metros da Alzirão, onde funcionará um centro cultural que vai exibir filmes e fotos das conquistas do Brasil em outros Mundiais.

Venda de camisetas deve gerar lucro de R$ 5 mil
À frente da Jorge Rudge, o advogado Luís Cotta, o Cacau, comanda uma equipe de 20 funcionários com verba de R$ 10 mil. É a ele que os subordinados entregam notas fiscais e recorrem quando acontece algum imprevisto. Detalhe: a comunicação é feita via rádio. ‘Nosso maior desafio atualmente é sair do vermelho. Estamos devendo R$ 780 e pretendemos recuperar esse dinheiro com a venda das camisetas’, diz Cacau. O advogado conta que o plano é arrecadar mais de R$ 5 mil vendendo 500 camisas a R$ 15. O dinheiro que entrar vai zerar o saldo da firma e será investido na rua.

Apesar de contar com um orçamento mais modesto (R$ 5 mil) que a Jorge Rudge e a Alzirão, a Rua Inhangá, entre a Rua Barata Ribeiro e a Avenida Nossa Senhora de Copacabana, encontrou uma maneira de empregar cerca de 10 jovens para ajudar na decoração. ‘Nós pagamos R$ 20 por dia de trabalho. Também oferecemos almoço, lanche e jantar. Só não pagamos a passagem porque eles moram por perto’, afirma o contador Darci Saloker, que atua como relações públicas da rua. Este é o primeiro ano, segundo Saloker, que eles enfeitam a Inhangá. Mas a inexperiência do grupo não foi obstáculo para fechar um contrato de patrocínio com uma cervejaria. ‘Foi um acordo vantajoso para os moradores, porque a empresa vai instalar, de graça, um telão para podermos assistir aos jogos da seleção’, ressalta o contador.

Os locais que ainda não têm patrocínio e dispõem de pouca verba usam a criatividade para não deixar a Copa passar em branco, como é o caso da Doutor Leal, no Engenho de Dentro, que recebeu de uma escola de samba 2 bonecos utilizados no último carnaval. Já o grupo da Araújo Rozo, em Anchieta, na Zona Norte, arrecadou apenas R$ 1,2 mil com cerca de 40 vizinhos e teve que diluir a tinta em água para economizar.

 

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