
Vanessa Brito:
Com 9 anos de atividades, a Cooperativa 100 Dimensão de reciclagem de lixo da região administrativa Riacho Fundo II do Distrito Federal, está instalada em sede própria de 4 mil m2 e conta com 200 artesãos associados, especializados na coleta, reaproveitamento de resíduos sólidos e produção de acessórios de moda, objetos de decoração, mobiliário, brindes etc.
Educação e cultura são vertentes importantes da entidade. Além do galpão de produção, telecentro e teatro integram a sede da cooperativa. Aulas de inglês, espanhol e curso pré-vestibular para os filhos dos associados são os próximos passos. As bolsas de lacre de refrigerante são o carro-chefe da entidade. 500 delas são exportadas mensalmente para Alemanha e Califórnia-EUA.
10 anos atrás, as 20 ‘catadoras de lixo’ do Riacho Fundo II, fundadoras da Cooperativa 100 Dimensão, não imaginavam estar iniciando a trajetória de uma entidade social e produtiva, que hoje é referência nacional e internacional. ‘No início, chamavam a gente de as mulheres do saco‘, conta Domingas Farias, uma das fundadoras. Atualmente, ela é diretora operacional e coordenadora do setor de coleta da entidade.
Tudo começou quando um grupo de mulheres começou a se reunir com freqüência na casa de Sônia da Silva, atual presidente da cooperativa, para encontrar alguma alternativa produtiva, visando complementar a renda das famílias. Já haviam tentado vários projetos e nenhum tinha dado certo. Domingas era empregada doméstica, assim como muitas companheiras do grupo. ‘Éramos quase todas mulheres com 40 anos e sem mercado de trabalho’, justifica. Finalmente Sônia teve a idéia de fazer coleta seletiva do lixo nas ruas do Riacho Fundo II. No início, a proposta não foi muito atraente, conta Domingas, que demorou a aderir à nova atividade.
Depois do lixo separado, elas vendiam os lotes de papel, plásticos e vidros. ‘Era tudo organizado. Saíamos com 2 sacos amarrados nas costas’, relata a artesã. Com o tempo, conquistaram o respeito dos moradores e carrinhos foram doados a elas pelo Comitê Ação de Cidadania. Depois de 2 anos, catando e separando lixo, Sônia buscou o Sebrae DF para ver se havia algum apoio ou curso para elas. ‘Muita gente sabia crochê, pintura, bordado’, diz Domingas. Elas achavam que podiam produzir alguma coisa com o lixo.
Após o primeiro contato com a Instituição, as 20 ‘catadoras’ começaram a receber várias capacitações e cursos. Transformaram-se em artesãs. Fizeram muitos tipos de cursos: cooperativismo, associativismo, empreendedorismo, meio ambiente, papel reciclado, tear, reforma de móveis, gestão etc. ‘Tenho uma pasta cheia de diplomas’, afirma Domingas, orgulhosa.
Criatividade
Lacres de alumínio, plásticos de embalagens, xampus, garrafas PET, correntes de bicicleta, sobras de ferro, CD’s, cartões telefônicos e outros materiais do lixo, são transformados em bolsas, brincos, pulseiras, roupas, móveis, luminárias. Tudo que é produzido é vendido para o mercado interno e externo.
O sucesso da entidade é tamanho que todas as semanas visitantes brasileiros e também estrangeiros vão até o Riacho Fundo II. ‘Eles querem conhecer e aprender com a nossa experiência’, explica Domingas. A cooperativa e seus associados já foram tema de documentário de TV e de várias reportagens. Doações em materiais são bem-vindas na 100 Dimensão. ‘O lixo para nós é luxo’. Cada pessoa que doa alguma matéria-prima para a cooperativa, está ajudando muitas mães a terem trabalho e dignidade, acrescenta. Tudo é transformado em produtos de consumo, criativos e de bom gosto. ‘Nosso sonho parecia pequeno, no começo. Agora sabemos que nosso sonho é como o nome que escolhemos para a cooperativa, sem dimensão, não tem limite’, diz Maria de Souza, uma das associadas e fundadoras da entidade.
Parceiros, educação e cultura
Depois da criação da entidade, as 20 fundadoras passaram a atrair apoios, parcerias e clientes importantes. O número de associados também cresceu. O terreno onde está instalada a sede foi doado pelo governo federal. O primeiro galpão foi feito em madeirite. Hoje, ele tem 600 metros quadrados de alvenaria. O Banco do Brasil e a Caixa Econômica Federal são clientes fixos e, adquirem as caixas feitas de papel reciclado para serem oferecidas como brindes.
‘A Cooperativa 100 Dimensão é a prova de que a vontade de vencer e a perseverança fazem milagres. Nem sempre contar com recursos financeiros significa que um projeto social vai dar certo’, afirma Antonieta Contini, gerente da Unidade de Empreendedorismo Social do Sebrae DF. Ela acompanha a cooperativa desde os primeiros passos. ‘Esse projeto comprova a importância dos cursos e capacitações, que ajudam as comunidades a darem o salto’, ressalta a gerente.
‘Pensei que nunca ia passar de doméstica. Era muito tímida e fui criada na casa dos outros. Dormi na rua muitas vezes’, confessa ela. ‘Estamos no paraíso hoje. Aqui não tem tristeza. A gente canta, dança e volta a trabalhar. Tem café da manhã, almoço e lanche à tarde’, resume. Ela criou 4 filhos. Uma delas é também associada. A Cooperativa 100 Dimensão é sua vida e de mais 199 pessoas, conclui a artesã.
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